
ERAM OITO HORAS DA MANHÃ. E também o dia mais frio desde que eu havia chegado aos EUA. Alguém tinha me dito que, transferindo para Celsius, estávamos encarando uma temperatura de zero grau. E eu nunca havia sentido tanto frio na minha vida, mesmo com o Sol forte e o céu azul, sem nuvens, como sempre.
Na entrada da grande área gramada, uma multidão já formava uma fila que virava a esquina e descia rua abaixo, até virar outra esquina, descer outra rua, virar outra esquina, e assim por diante. Por sorte, eu o e grupo de estudantes brasileiros que estava comigo conseguimos um lugar depois da primeira esquina, então não estávamos assim tão longe das tendas onde um batalhão de guardas esperava para nos receber.
Além dos guardas, grandes máquinas de detector de metal formavam uma cerca. Para entrar ali, só passando por elas. E ninguém poderia entrar com bolsas, de qualquer tipo. Algumas latas de lixo já estavam cheias de pequenas bolsas de guardar máquinas fotográficas, provavelmente de pessoas desavisadas que agora tinham que jogar seus pertences fora para poder entrar. No alto de todos os prédios ao redor era fácil avistar atiradores de elite. E um homem gordo e barbudo atrás de minha usava um fone disfarçado no ouvido que, com certeza, não pertencia ao seu mp3: tratava-se de um agente secreto.
Uma segurança deste porte e uma comoção tão grande na cidade de Raleigh, Carolina do Norte, tinha um motivo. Em algumas horas o candidato democrata à presidência dos EUA, Barack Obama, faria um discurso em um estado que, nos últimos 44 anos, tinha votado em presidentes republicanos. As escolas não funcionaram naquele dia. Lojas estavam fechadas. Bancos e mercados, vazios. Milhares e milhares de pessoas saíram de suas casas, encararam o frio, e estavam lá, em pé, esperando para ver o homem que, para todos, era a única esperança para a América.
“Não gosto nem de pensar o que aconteceria se aquele velho do McCain ganhar essa eleição”, dizia uma senhora negra de meia idade. “Voltaríamos à época da escravidão”. Ela pode ficar tranqüila, a escravidão não vai voltar, uma vez que Barack Obama já é o presidente-eleito dos Estados Unidos. Mas naquela manhã ninguém sabia disso ainda. Faltavam seis dias para o 4 de novembro que mudaria a história do país. Naquela manhã, Barack Hussein Obama ainda era apenas um Senador. Mas não um homem comum, chamar Obama de um homem comum é um erro. Sua história é surpreendente.
BARACK É UM NOME AFRICANO QUE SIGNIFICA ABENÇOADO. Foi o pai de Obama quem escolheu o nome. Quando, no dia 4 de agosto de 1961, Barack Obama Sênior passou adiante o seu nome, ele não podia nem imaginar o quanto abençoado seu filho seria. Muito mais do que ele próprio.
Nascido no Quênia, um dos países mais pobres da África, o pai de e Obama foi para os Estados Unidos fazer uma faculdade. E foi na Universidade do Havaí, em Honolulu, que ele conheceu Ann Dunham, uma americana do estado do Kansas. Um negro e uma branca. Africano e americana.
Quando Obama tinha apenas dois anos, seus pais se separaram. Obama Sênior voltou para a África, e só viu o filho apenas mais uma vez antes de sua morte, num acidente de carro em 1982. Não viu o filho sair de uma adolescência relativamente comum, apesar do flerte com maconha e cocaína, e iniciar uma subida tão meteórica que pegou os EUA, e o mundo, de surpresa.
Do Havaí, Obama mudou-se para a Indonésia com a mãe e seu novo marido. Depois de crescido, foi para Los Angeles, depois Nova York, onde se formou em Columbia, uma das faculdades mais respeitadas dos Estados Unidos. Mudou-se para Chicago, onde realizou diversos trabalhos sociais. Viajou à Europa, foi ao Quênia visitar parentes que nunca tinha conhecido, voltou para os EUA e entrou na Harvard Law School. Lá foi o primeiro presidente negro da revista Harvard Law Review, uma das mais prestigiadas publicações no meio da advocacia. Trabalhando como advogado em Chicago, conheceu e casou-se com Michele, escreveu A Origem dos Meus Sonhos, um livro surpreendente de memórias, e teve duas filhas.
Só então resolveu iniciar sua carreira política.
Seu pai não viu Obama se tornar, em 1996, senador pelo estado de Illinois. Seu pai não viu quando, em 2004, Obama fez o discurso que colocaria seu nome no radar. Foi na convenção nacional do partido democrata, e Obama, até então pouquíssimo conhecido, foi fazer seu discurso para apoiar o então candidato democrata à presidência, John Kerry.
Dentre muitos, um... era esse o nome do discurso. “Não existe uma América branca e uma América negra, existe os Estados Unidos da América. Não existe uma América conservadora e uma América Liberal, existe os Estados Unidos da América”. Foram essas frases que o fizeram famoso. Carlos Eduardo Lins, jornalista da Folha de São Paulo que já cobriu diversas eleições americanas, estava lá naquele dia. Ele diz se lembrar exatamente do que pensou quando ouviu Obama fazer seu discurso, “Esse homem vai ser presidente dos Estados Unidos um dia”. Pois é, quem diria?
Quando Obama começou sua campanha, em Janeiro de 2007, Hillary Clinton era a grande favorita a se tornar candidata à presidência. Mas, aos poucos, Obama foi ganhando atenção no que se tornou a disputa primária mais televisionada, acompanhada e analisada da história da democracia americana. Um negro ou uma mulher. De qualquer forma, a escolha seria histórica, porque desde o começo do ano passado já se sabia, muito embora nem todos tivessem coragem de dizer, que um republicano não ganharia as eleições de forma alguma.
É claro que John McCain, herói de guerra, prisioneiro torturado durante cinco anos no Vietnã, era um excelente candidato... no papel. É claro que Sarah Palin, a bela governadora do Alaska, era um sopro de ar puro para a campanha... no papel. McCain e Palin tiveram seus momentos nos últimos meses. Mas desde que Obama surpreendeu muita gente e se tornou o candidato democrata à presidência, deixando Hillary para trás, não teve nenhuma outra personalidade que atraiu tanta atenção e fascínio nos EUA e no mundo que Barack Obama.
“ELE É O HOMEM PARA O NOSSO TEMPO”, dizia Pam, negra, 49 anos. Depois que encaramos a segurança, passamos pelos detectores de metais, fomos cheirados pelos cachorros da polícia, finalmente estávamos lá dentro, a alguns metros do palanque onde, em algumas horas, Obama falaria. Pam estava lá com um grupo de mulheres de sua igreja, esperando ansiosamente para ver o seu candidato. “Não agüento mais esses republicanos. Quem eles acham que são para sair invadindo o país dos outros? Você tem que sentar, conversar, ver do que eles precisam e tentar resolver as coisas.”
Mudança era o que as pessoas mais pediam, e também esperança, a palavra mais lida nos buttons e adesivos que eram vendidos às centenas por todos os lugares. A expectativa em cima de Obama é gigantesca, e muitos acreditam que ele não vai conseguir dar conta. Pam tem certeza que se ele não conseguir fazer um bom trabalho, vai ter muita gente decepcionada com ele.
Andy Taylor, professor de Ciências Políticas na Universidade Estadual da Carolina do Norte acha que Obama terá grandes desafios. “De certa forma, as pessoas esperam que ele seja como Roosevelt”, disse, citando o presidente americano que, durante a Depressão dos anos 30, criou o New Deal e tirou os EUA do buraco. “Mas ninguém sabe como ele vai governar”, continua Taylor, “ele tem ido para o meio durante a campanha, mas pode ser que, uma vez eleito, ele volte a ser bem mais esquerdista, como ele era no começo”. Como os democratas aparentemente terão a maioria no Senado e no Congresso, Obama teria todas as condições para governar da forma que quiser.
Como Roosevelt ou Kennedy, Obama é em quem os americanos estão apostando todas as fichas para saírem da situação ruim em que estão. Com seu carisma, atrai multidões. Os 28 mil que esperavam por ele aqui na Carolina do Norte entraram em euforia quando o locutor anunciou: “Senhoras e Senhores, com vocês o futuro presidente dos EUA, Barack Obama!”. Só se ouvia um som ensurdecedor de gritos e aplausos. Rolling Stones, Madonna? Não... Barack Obama.
NEM MESMO OS PROFESSORES DA Universidade Estadual da Carolina do Norte sabem explicar direito o complicado processo eleitoral americano. É realmente uma tarefa árdua. Como quase todos nós sabemos, os Estados Unidos são formados por cinqüenta estados que, embora unidos, são autônomos em diversas questões. A Constituição Americana tem lá suas regras gerais, mas cada estado faz suas próprias leis.
E na questão eleitoral também é assim. Em alguns estados você pode votar antecipadamente. Em outros, até por carta. Mas não é isso o que deixa muito brasileiro, e muito americano, perdido. O xis da questão está nos colégios eleitorais. Pois bem, cada estado tem seu determinado número de representantes no congresso, e esse número é determinado pelo tamanho da população. Um estado como a Califórnia, o mais populoso dos EUA, tem 55. Um estado como o Maine, ou o Alaska, tem 3. Junte-se a isso os 2 senadores que cada estado americano tem e pronto, você tem os 538 votos eleitorais que definem o presidente dos EUA. Para ganhar, é necessário alcançar 270.
Parece muito interessante e bonito. Mas a realidade é que o sistema de colégio eleitoral causa muita polêmica. Em 2000, Al Gore era o favorito a se tornar o próximo presidente dos EUA. A CNN chegou a anunciar sua vitória. Mas eis que aparece um tal de Bush e vira o jogo nos últimos minutos da prorrogação. O que aconteceu foi que Al Gore recebeu a maioria dos votos populares. Mas Bush recebeu a maioria dos votos eleitorais. Como isso é possível?
É que no sistema de colégio eleitoral basta você receber um voto a mais em um determinado estado para você levar todos os votos eleitorais. Então, mesmo que 49% da população de Califórnia vote por um candidato republicano, se 51% votar por um democrata, esse candidato leva todos os 55 votos eleitorais. Os 49% que votaram republicano tiveram sua escolha completamente desconsiderada. E isso funciona assim em todos os estados americanos, com exceção de dois, que dividem seus votos eleitorais de acordo com a porcentagem que cada candidato recebeu.
É confuso, não faz sentido, é estranho, e quase que antidemocrático. Mas é assim que funciona. No fim das contagens, Obama tinha recebido 338 votos eleitorais, uma lavada. Mas nos votos populares, ele recebeu 52%, contra 47% de McCain. Não foi uma diferença tão grande assim.
Andy Taylor, professor da Universidade Estadual da Carolina do Norte, vê um problema nos colégios eleitorais: eles inibem completamente a formação de terceiros partidos. “Isso acontece porque os dois grandes partidos, democratas e republicanos, são muito ajustáveis às posições de terceiros partidos, acoplando-as como se fossem suas”, explica. Pouquíssimas vezes na história americana um candidato de algum outro partido conseguiu resultado expressivo. “O mais notável destes candidatos é Ross Perrot, que em 1992 conseguiu quase 20 milhões de votos populares, mas não conseguiu nenhum voto eleitoral”, argumentou Taylor.
NO DIA 4 DE NOVEMBRO DE 2008 chovia muito na cidade de Raleigh, Carolina do Norte. Enquanto em muitas outras cidades dos EUA pessoas enfrentavam filas gigantescas para poder votar, no Centro Comunitário de Artes da Universidade da Carolina do Norte, poucas pessoas apareciam, aos poucos, em baixo de seus guarda-chuvas. Mas uma pequena fila se formava da mesma maneira.
Linda Platt passou os últimos sete dias o tempo inteiro na frente do Centro Comunitário, distribuindo panfletos com dezenas de nomes de candidatos democratas. Hoje, mesmo com a chuva, ela permanece lá, fazendo o que acredita ser essencial. “As pessoas chegam aqui sabendo em quem vão votar para presidente e governador, mas ninguém faz idéia de em quem votar para os outros cargos menores. Por isso que o que eu faço é tão importante. Um presidente não governa sozinho, afinal de contas...”, disse.
Na fila, encontro uma senhora vestida com trajes africanos. Ela me conta que nasceu na África, no pobre país do Sudão, mas que faz muito tempo já está nos EUA. Era a primeira vez que ia votar, porque só há pouco tempo conseguiu a cidadania. Ela é pragmática, sem afetações. “Vou votar no Obama porque 8 anos de políticas ruins já é demais”. Pronto, nada sobre raça, nem um comentário sobre as origens similares entre ela e o futuro presidente dos EUA. Talvez ela compreenda muito mais do que eu o verdadeiro significado da chegada de Obama até a Casa Branca. Talvez ela consiga ver que ele é apenas um, de uma luta que envolveu muita gente.
Pessoas como Rosa Parks, que se recusou à ceder seu lugar no ônibus para um branco, em 1954, dando início à um boicote dos negros ao transporte público que durou 13 meses. Mulheres como Ella Baker, Fannie Lou Hammer, Spetima Clark, que lutaram pela igualdade na educação, no futuro. Homens como Martin Luther King Jr., o pastor protestante que caminhou intermitentemente por seu sonho de igualdade. Malcom X e sua luta através de “qualquer meio necessário” para por fim ao segregacionismo. Aretha Franklin, James Brown, Ray Charles e Billie Holliday que tomaram as rádios dos EUA com suas canções que tanto simbolizavam a história de seu povo.
Em um de seus mais famosos discursos, o Dr. King, como os americanos o chamam, repleto de uma onisciência assustadora, declarou o fim que chegaria apenas alguns dias depois, quando seria assassinado. “Eu vi o topo da montanha. Deus permitiu que eu chegasse ao topo. E eu olhei do outro lado da montanha. E eu vi a terra prometida. Eu não devo chegar lá com vocês, mas eu quero dizer que nós, como um povo, chegaremos à terra prometida”.
Nos EUA, uma mensagem se tornou muito popular passada de celular à celular. Ela diz: “Rosa Parks sentou para Martin Luther King caminhar. Luther King caminhou para Obama correr. E Obama correu para que as próximas gerações possam voar”. Na noite do dia 4, quando foi finalmente anunciado que Obama era o presidente-eleito dos EUA, pessoas nas ruas choravam, comemoravam a vitória. Era a vitória não de um homem, mas de um povo. Eu imagino aquela senhora africana em casa, sentada, talvez ela não estivesse pulando, chorando ou gritando. Talvez ela estivesse apenas olhando para a TV, orgulhosa, pensando no seu próprio povo, lá na África, e no tanto que ainda falta ser conquistado.